29.10.11

Sobre mãe, geladeira e chuva...

Até alguns dias atrás o que eu mais escutava da minha mãe era: “fecha essa geladeira, menino!”.

A verdade é que na maioria das vezes em que abrimos a geladeira, é verdadeira e unicamente para pensar. É como se aquele eletrodoméstico fosse um poço cheio de inspiração. Mas vamos pular esta parte porque eu não estou aqui agora para falar de geladeiras, porém quero ressaltar a frase mais dita por minha mãe à mim, que se encontra ali acima.

É cientificamente comprovado – eu acho – que um adolescente tem uma relação difícil com os pais. “Fecha essa geladeira, menino!” é um tipo de frase que não ajuda muito numa sólida relação, nem “Peraí” que é o que eu costumo mais responder à eles, contudo, chega um momento em que pais e filhos estabelecem uma forte conexão que um passa a entender o lado do outro. Este é o momento em que jovens amadurecem e que adultos começam a levá-los a sério.

Pulando agora para um dia em que não havia geladeira alguma presente, estávamos eu e minha mãe, minha mãe e eu, voltando pra casa, atravessando a cidade debaixo de um céu cinza que anunciava chuva num fim de tarde caloroso.

Começou, então, a chuviscar. Dois minutos depois, um toró caía sobre nossas cabeças. A essa altura não preciso dizer que estávamos sem guarda-chuva, éramos os únicos na rua e do ponto onde estávamos até em casa não havia nada que nos servisse de abrigo, preciso? Pois bem, caro leitor, sem ter como protestar ou pedir que a chuva aguardasse cinco minutinhos, eu e minha mãe aceitamos que toda aquela água cheia de energia caísse sobre nós, encharcando-nos. Não estávamos, porém, propriamente longe de casa, mas também não estávamos propriamente perto, o que de um jeito ou de outro, debaixo da chuva, sem abrigo pelo caminho, nos deixaria propriamente molhados.

Foi fantástico! Num fim de tarde que seria só mais um fim de tarde não fosse pela chuva, estavam uma mãe de meia idade e um filho adolescente no meio da rua, debaixo de uma forte chuva, encharcados, rindo.

É, eles riam. Nós ríamos.

Afinal, é diferente de quando estamos em casa que quando vemos a chuva pela janela já corremos fechá-la, fechar as portas, tirar as roupas do varal e/ou fazer bolinhos da dita cuja e temos o asco de deixar que um pingo nos molhe a pele.

Eu e minha mãe estávamos sós na rua, voltando pra casa, não tínhamos nada a perder, nada a lamentar. Estava calor e nós estávamos tomando chuva, meio correndo, meio andando. E rindo. Um olhava para o rosto do outro e via um belo de um sorriso estampado.

Numa brincadeira de criança encontramos a maior satisfação que uma mãe pode ter por um filho e um filho por uma mãe que é um ver o outro feliz.

Naquele momento, foi como se eu dissesse a mim mesmo: “Hoje é dia de rever conceitos, bebê” e então eu olhei para aquela mulher que ria em minha frente e vendo o sinônimo de amor, percebi ser perfeitamente natural e válida a implicância e o pegar no pé. Afinal, ela é mãe. Mães são assim e é por isso que nós a amamos. Eu me senti maduro ao aceitar isso naquela infantilidade toda de tomar chuva e se divertir e de alguma maneira eu vi que minha mãe estava pronta para começar a me levar a sério.

Eu realmente não sei se tudo isso foi influenciador, mas até agora eu não abri mais a geladeira pra pensar, pra me inspirar ou conseguir ideias. E sim para decidir o que eu realmente vou pegar dali de dentro, pois, sejamos francos, na maioria das vezes que abrimos a geladeira ainda não temos em mente o que queremos até que vemos aquela maçã ali, ou aquele pacote de bolacha já aberto...

“Fecha essa geladeira, menino!”
“Peraí”

Bem, ao longo da vida mudamos constantemente a nossa visão de mundo, mas há coisas que não mudam nunca.

Força do hábito.

6 comentários:

  1. VejaBlog
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    Parabéns pelo seu Blog!!!
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    Um forte abraço,
    Dário Dutra

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  2. Eu adorei a crônica...pensei mto em tudo que foi relatado, e achei muito legal a geladeira (que é fato)com toda a conexão com o restante;
    Não sei, mas pude compreender este 'amadurecimento' de quando somos levados a sério...e sinceramente esta mudança as vezes é um pouco assustadora, mas mto legal tbm!
    Parabéns lindo blog!

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  3. Oii
    Nossa adorei o texto HAHA
    Engraçado que aqui foi sempre meu pai que disse essa frase pra mim.

    Eu acho que mudei pra melhor, ainda bem mas precisei de umas coisas ruins em relacionamentos pra isso kkk

    beijos
    Nana - Obsession Valley

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  4. Gostei muito do blog.
    O amor é bonito.
    Mas a crueldade existe.
    Vejam e divulguem, por favor

    http://anticolonial21.blogspot.com/

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  5. Oi Elton!
    Poxa vida, que texto maravilhoso! Adorei mesmo, ficou ótimo!
    E é assim mesmo né?! É engraçado isso, mas no momento em que confiamos em nossos pais e eles em nós, percebemos o quanto mudamos, o quanto somos maduros.

    Beijos, Kamila
    http://vicio-de-leitura.blogspot.com/

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  6. Anônimo5.11.11

    Respondendo sua pergunta: Li. Eu realmente li, mas faltam palavras agora para comentar.
    Lá vão as palavras fluindo... vou tentar.
    Sua crônica abordou um tema que venho refletindo faz um tempo: o fato dos jovens não serem tão levados a sério. Lembra-me até um trecho de uma música do Charlie Brown:"O jovem, no Brasil, nunca é levado a sério, não"
    E sabe, tens razão, coisa que nunca pensei: amadurecementos quando nossos pais passam a nos compreender. Por isso, é necessário um tempo para os filhos. Para que eles sejam ouvidos´e tornem-se autoconfiantes.

    Beijo doce.
    Fico por aqui.
    Gabriela do Blog Universo Paralelo

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